- Decidiu ficar?
Perguntou como quem acende
a última luz da casa.
- Antes de desistir (de alguém),
eu fiquei.
Não por pena.
Sequer por amor.
Fiquei por fadiga antiga
palavra presa
morando nessa casa.
Aqui até a mossa parecia mobília.
- Mas, eu não quero mais brigar, não.
Sua voz saiu baixa,
quase tropeçando em culpa.
E pela primeira vez
o silêncio não virou flecha,
atravessou cansado também.
Que nem eu.
Então o mundo parou diante do abismo:
duas pessoas remendadas
- Você não vai despedir dela?
A pergunta abriu as paredes ao meio.
Eu lembro do quadro trincar sob a estante.
da janela tremer.
do seu olho fugir do meu
como quem previa a resposta.
(silêncio)
Porque existem verdades
que antecedem a palavra
chegam e sentam entre as poltronas
frias da sala.
- Mas eu fui.
E naquela hora
não havia superação em ninguém.
Só aquela mágua difusa
de quem percebe tarde
que amar outrem
não inumiza do erro.
- Nada daquilo que eu disse,
eu queria ter dito.
Falou olhando pro chão,
com as frases aos cacos por ali.
E quis recolher cada uma
com as mãos,
sob o risco dos talhos.
- Eu não queria ter mentido pra você.
Nossos erros se encararam pela primeira vez,
sem advogados,
nem orgulho.
Sem a maquiagem graciosa da razão.
Dois humanos.
E depois?
Depois...
ninguém chorou feito cinema.
Não se abraçaram piedosamente.
O amor não virou música.
Nó(s).
Ficamos,
ouvindo a madrugada pingar
lentamente na cozinha.
Tu respiravas de um lado,
eu sobrevivia do outro.
Porque às vezes o amor acaba num grito mudo.
Ferido, sujo, fervendo
e
consequentemente
morre por inanição.